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20101027

(do) MANIFESTO SURREALISTA

imaginação querida, o que sobretudo amo em ti é não perdoares.
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André Breton (1924)

20091110

MEANINGLESS

ser-se complacente com aquilo que não se quer é o mesmo que dizer que não nos importamos, que aceitamos e até que queremos aquilo que afinal, não queremos.
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mostrar indiferença e receber com aparente agrado é muitas vezes uma defesa emancipada, um compromisso que aceitamos com aquilo que não queremos. percorrermos o caminho dessa aceitação é abdicar da nossa vontade; se o escolhemos fazer, devemos estar cientes de que essa viagem implica contradições interiores, sobretudo, que implica deixarmo-nos de debater entre aquilo que queríamos, que decidimos renunciar, e aquilo que não queremos mas estamos dispostos a aceitar.
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o processo não é transparente, nem sempre é claro; por não termos consciência que nos distanciámos daquilo que queríamos, damos por nós a não ter dúvidas sobre o que é explícito e centramos todas as nossas atenções naquilo que construímos como implícito. wrong direction! na maior parte das vezes, damos por nós enredados numa estória que de semelhante só tem o começo. tudo o resto está aquém do que queríamos, ou simplesmente é outra coisa. e é nesse momento, nesse preciso instante que desconfiguramos o mapa da nossa viagem! andamos um passo para trás e outro para a frente ...e ficamos entre aquilo que renunciámos na memória, que agora pouco importa, e a esperança de que aquele caminho nos levará ao mesmo destino. ficamos no chamado impasse permanente: não vamos embora porque para trás o caminho desapareceu - sim, faz de conta que as emoções habitam no deserto e os ventos apagam quaisquer pegadas - nem os que têm bom sentido de orientação deixam de olhar em volta, de olhos e pés perdidos... e é nesse vazio que se dá início ao processo de fantasiar miragens. se nos parece ver um oásis, um acampamento de berbéres ou uma cáfila, aí vamos nós, cheios de esperança, sempre diminuída após consecutivos encontros com água seca, tendas imaginárias e camelos a jacto ... ainda assim, é a única arma que passamos a ter, a esperança. e é ela que nos mantém a caminho de qualquer coisa sem caminho por onde ir. e é deste ciclo vicioso que nascem as más relações.
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não sei se há forma de contornar este ciclo, sei que às vezes, como em tantas outras coisas, temos de ser MacGyvers* nas relações; temos de arranjar maneira de engendrar um plano que não se compadeça dos mesmos hábitos, porque os mesmos hábitos são meaningless, são estratégia disfuncional. mesmo que não sejam para sair das dunas emocionais, como já serviram de plano de fuga, repeti-los é meaningless. nessa ausência de sentido, a complacência dá corpo ao que não queremos.
...e nossa única arma passar a chamar-se burrice.
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*as estratégias do MacGyver funcionavam sempre mas também eram por hábito e por risco assumido one single last shot.

20090808

RETRATO DOS 15 ANOS

daquela porta para dentro vai aquela confusão que mãe nenhuma entende. os amigos acham fixe. as amigas torcem o nariz. so ele faz frente à confusão; para todos os outros, encontrar seja o que for é uma autêntica caça ao tesouro. diz que está logo ali, na terceira prateleira, por baixo dos livros e dos dossiers e dos bilhetes. e da lanterna. e das luvas de boxe. ninguém encontra... o tempo acumula-se. nenhum aspirador pode sugá-lo.
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jazem nas prateleiras os recados clipados em fotografias, na esperança da reissurreição. ó filho, como é que consegues fazer alguma coisa nesta desordem? Eu cá me entendo. Na cómoda vê-se um ou outro deslizar dedos , como quem constacta que uma limpeza até seria bem-vinda não fosse ter-se afeiçoado aos acáros. tem sorte não ser alérgico, diz a tia-avó, fosse eu...
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quando recebe os amigos diz-lhes para arredarem a tralha do maple e lá se sentam e conversam durante a tarde. o sofá não fica nada confortável só com ele, por isso, quando vão embora, revolve a tralha e volta a colocá-la delicadamente sobre os almofadões. no quarto, às vezes a conversa crispa-se: se parece bem receberes os teus amigos assim. oh mãe, não me chateies, eles nem se importam... meu filho, isso nem parece teu, convidas os teus amigos para virem, ao menos davas um jeitinho no quarto, não achas? (...) a irmã mais velha bate, entra e pede-lhe emprestados os óculos de mergulho. onde é que estão mesmo? na porta da saída!! - respondeu-lhe.

20090709

[DES]AFINAÇÃO

Ela vai e vem vs Vou sair para comprar cigarros . JP Smões

[ela vai e vem]: a minha nova namorada tem tanta pressa de puro amor, mas quando me come e me consome, acalma um pouco a sua fome, o seu fulgor. os dias ardem nos seus olhos... ela não quer ficar para trás. enquanto eu canto e esqueço, ela compõem no tempo, uma urgência de prazer e paz. sempre que a noite cai, ela vem e vai nos meus braços, como se eu fosse o mar... e navega até se cansar e sossega a sua sede sem fim... sempre que a noite cai, ela vem e vai nos meus braços, como se eu fosse o mar e navega até se cansar, até que sossega a sua sede sem fim, sem fim, a sua mágoa sem fim, sem fim, a sua infância sem fim, sem fim, a sua graça sem fim, sem fim... ela é assim...!

vs

[vou sair para comprar cigarros]: meu amor, eu volto já... vou por aí, vou ver o mar, ouvir o canto da sereia, duvidar, vou duvidar: do sol, do céu, do chão, do ar... vou-me afundar na ferida escura e esquiva que me tem cativo, imóvel... sem solução. meu amor, se eu naufragar, se me perder do teu olhar, desaparecer sobre o luar, me consumir de bar em bar, na bruma bebêda de um cais gritar que quero mais, que a vida é mais e mais e mais, perdoa, perdi-me... na confusão. se porém, se porém, eu me encontrar, talvez o mar se acalme no meu peito e eu possa por os pés no chão e respirar. e abraçar a solidão e ocupar o meu lugar na vasta e tensa imensidão e então voltar e... se tu ainda me quiseres, meu amor se desejares, dou-te tudo o que sobrar... de mim.

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[des]afinação

20080521

CAIXOTES DO LIXO

há sítios onde não conseguimos ser tão produtivos. deve ser uma questão de ambiente, atmosfera e/ou das pessoas envolventes. e a tarde de hoje não foi nada produtiva mas também, com conversas-ruído sobre arquitectura portuguesa do século XVI a norte e estímulos distratores a poente, quem é que consegue ficar a olhar para sul? é que hoje o dia nem estava particularmente solarengo.
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enfim, mas isso não é grave. o que é grave são as papeleiras abertas nas casas de banho. isso é que faz doer a vista. não gosto nada de ter de olhar para as sobras dos outros numa das muitas vezes que vou à casinha. saio da dita instalação sanitária com um quase-vómito a sair-me pela boca. e o pior nem é isso, é saber que vou voltar.

20080510

EM SÍNTESE,

não prefiro assim mas isso não importa o suficiente.

20080217

LIMPEI OS PÉS E ENTREI EM CASA

onde a saudade guardava a ausência e a esperava com a mesma candura de sempre.

20071108

NUIT ET BROUILLARD

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10 anos depois do Holocausto,
em 1955,
32 minutos de verdade e de contenção,
num filme de Alain Resnais.
testemunhou e escreveu - Jean Cayrol, um texto
narrado por Michel Bouquet.
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.final