20081124

CONDUZIR

é um prazer antigo. lembro-me de ser pequenina e ficar delirante, sentada ao volante, enquanto o meu pai carregava devagarinho no acelerador. entre os saltos das hormonas e os caprichos da idade do armário comecei a conduzir. desta vez à séria. tinha quinze anos. lembro-me de todos os detalhes: trocar de lugar. pôr o cinto. ouvir as instruções cautelosas, arrancar devagarinho e sentir uma óbvia estranheza da coordenação mecânica que é os braços para uma coisa e os pés para outra. chata até mais não, foram muitos os fins-de-semana misericordiosos do meu pai a aturar-me entre curvas e contra-curvas até aos dezoito. depois foi a vez do instrutor.
.
conduzir é um prazer antigo saboreado sempre. gosto até quando me stresso, quando insulto os abéculas que conduzem tipo papa-reformas e os pés-pesados que conduzem uma lata ao estilo caixão com rodas.
.
gosto das viagens acompanhadas, em que dá para pôr a conversa em dia no percurso habitual. gosto, quando sozinha, de ouvir a M80 em altos berros e cantar da forma mais desafinada possível, (por impossibilidade de saber melhor). gosto de viajar de noite e do percurso ser um tempo de instrospecção. de conduzir o pensamento para os lugares de velocidade controlada, para os lugares de transgressão. gosto de avisar o carro de trás quando a minha faixa está a acabar. gosto de continuar com a mesma velocidade, mesmo quando passo por uma brigada. gosto de estacionar o carro em sítios difíceis e gosto de o deixar no sítio onde me dá mais jeito mesmo que esteja em infração. gosto de ver as pessoas no sentido oposto em contraluz com o carro de trás: lê-se sempre uma estória mesmo que imaginada. e gosto de deixar pneu quando arranco num semáforo, mas os pneus tão caros e faço isso menos vezes do que aquelas que gostaria. gosto da sensação de chegar ao destino, do desafio ou do lar. gosto de abrir o carro com o fecho central novo. rio-me quando o alarme dispara com o carro em andamento e tenho de sair, trancar, destrancar, entrar e arrancar. às vezes de repetir.
.
é um gesto muito completo: fascínio, raciocínio, automatismo, encontro, palhaçada, reflexão, rectidão, desafio, imaginação, gozo, transgressão, pospor. é um gesto antigo, conduzir... será sempre um prazer, daqueles que se saboreiam muito.