As Cidades Subtis
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1. se Armilla é assim por estar incompleta ou por ter sido demolida, se por detrás dela está um encantamento ou só um capricho, eu ignoro. o facto é que não tem muros, nem telhados, nem chão: não tem nada que a faça parecer uma cidade, excepto as canalizações de água, que sobem na vertical onde deveriam existir as casas e se ramificam onde deveriam ser os andares: uma floresta de canos que terminam em torneiras, duches, sifões, válvulas. (...) dir-se-ia que os canalizadores acabaram o seu trabalho e se foram embora antes de chegarem os pedreiros; ou então que as suas instalações, indestrutíveis, resistiram a uma catástrofe, terramoto ou corrosão de térmitas.
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2. se quiserem acreditar, muito bem. agora vou contar como é Octavia, cidade teia de aranha. há um precipício no meio de duas montanhas escarpadas: a cidade está situada sobre o vácuo, ligada aos dois cumes por teleféricos e correntes e passarelas. Caminha-se sobre as travessas de madeira, com cuidado para não meter os pés nos intervalos, ou agarrados às malhas de cânhamo. por baixo não há nada por centenas e centenas de metros; corre uma ou outra nuvem; entreve-se mais abaixo o fundo do precipício.
esta é a base da cidade: uma rede que serve de passagem e apoio. tudo o resto, em vez de se elevar por cima, está pendurado por baixo. (...)
suspensa pelo abismo, a vida dos habitantes de Octavia é menos incerta do que noutras cidades. sabem que mais do que um certo ponto a rede não aguenta.
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As Cidades e as Trocas
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1. em Cloé, grande cidade, as pessoas que passam pelas ruas não se conhecem. ao verem-se imaginam mil coisas umas das outras, os encontros poderiam verificar-se entre elas, as conversas, as surpresas, as carícias, as ferroadas. mas ninguém dirige uma saudação a ninguém, os olhares cruzam-se por um segundo e depois afastam-se, procurando novos olhares, não param. (...) uma vibração de luxúria move continuamente Cloé, a mais casta das cidades. se os homens e mulheres começassem a viver os seus efémeros sonhos, todos os fantasmas se tornariam pessoas com quem se poderia começar uma história de perseguições, de ficções, de malentendidos, de choques, de opressões, e assim acabaria o carrossel das fantasias.
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As Cidades e os Olhos
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1. depois de caminhado sete dias através de bosques, quem vai para Bauci não consegue vê-la e no entanto já lá chegou. são as finíssimas andas que se elevam do solo a grande distância umas das outras e se perdem acima das nuvens que sustêm a cidade. sobe-se com escadotes. no chão os habitantes raramente se mostram: têm já tudo de que precisam lá em cima e preferem não descer. nada da cidade toca o solo à excepção daquela spernas compridíssimas de fenicóptero em que assenta e, nos dias luminosos, uma sombra perfurada e angulosa que se desenha na folhagem.
três hipoteses se põem sobre os habitantes de Bauci: que odeiam a Terra; que a respeitam a ponto de evitar qualquer contacto; que a ama tal como ela era antes deles e com binóculos e telescópios apontados para baixo não se cansam de passá-la em resenha, folha a folha, pedra a pedra, formiga por formiga, contemplando fascinados a sua própria ausência.
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Italo Calvino