20080611

CANTO IX EM PROSA

Todas de correr cansam, Ninfa pura, Rendendo-se à vontade do inimigo, Tu só de mi só foges na espessura? Quem te disse que eu era o que te sigo? Se to tem dito já aquela ventura, Que em toda a parte sempre anda comigo, Ó não na creias, porque eu, quando a cria, Mil vezes cada hora me mentia. As flores "Não canses, que me cansas: e se queres Fugir-me, por que não possa tocar-te, Minha ventura é tal que, ainda que esperes, Ela fará que não possa alcançar-te. Espora; quero ver, se tu quiseres, Que subtil modo busca de escapar-te, E notarás, no fim deste sucesso, Tra la spica e la man, qual muro è messo. As flores Ó não me fujas! Assim nunca o breve Tempo fuja de tua formosura! Que, só com refrear o passo leve, Vencerás da fortuna a força dura. Que Imperador, que exército se atreve A quebrantar a fúria da ventura, Que, em quanto desejei, me vai seguindo, O que tu só farás não me fugindo! As flores Pões-te da parte da desdita minha? Fraqueza é dar ajuda ao mais potente. Levas-me um coração, que livre tinha? Solta-me, e correrás mais levemente. Não te carrega essa alma tão mesquinha, Que nesses fios de ouro reluzente Atada levas? Ou, depois de presa, Lhe mudaste a ventura, e menos pesa? As flores Nesta esperança só te vou seguindo: Que, ou tu não sofrerás o peso dela, Ou na virtude de teu gesto lindo Lhe mudarás a triste e dura estrela: E se se lhe mudar, não vás fugindo, Que Amor te ferirá, gentil donzela, E tu me esperarás, se Amor te fere: E se me esperas, não há mais que espere. As flores Já não fugia a bela Ninfa, tanto Por se dar cara ao triste que a seguia, Como por ir ouvindo o doce canto, As namoradas mágoas que dizia. Volvendo o rosto já sereno e santo, Toda banhada em riso e alegria, Cair se deixa aos pés do vencedor, Que todo se desfaz em puro amor.
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in estâncias 79-82, canto IX, os Lusíadas