20080425

texto em itálico

estava determinada em não aceitar. daquele meio, tão seguro, proferia palavras que espalhavam ânimo à plateia. do mesmo lugar deixava laivos de ternura, daquelas que lhe aqueciam o estômago, aquele que às vezes, e incrivelmente, ainda borboléta. a palavra disponível nunca lhe pareceu sua, mas na realidade era assim que ela o via. estava lá a todos os momentos, com a maior disponibilidade, o maior carinho, com voz de caramelo, e ele nunca achou que não estava a fazer o correcto, porque estava a fazer o que o coração mandava. não percebia. e também nao fazia questão de perceber. foi-se cansando com o tempo, não se sentia mais disponível, não tinha mais em si o domínio daquela facilidade de outrora. pensou-se capaz de superá-la. achava que se anunciasse a ida, viria o pedido para ficar... mas no fundo, no fundo não queria ir, só queria um pedido para ficar. e somou frustração ao que não entendia. parte dele sabia que ela o queria, sabia-o da pior forma, ela queria-o ali. não era para tê-lo, não era para passear com ele, nem para fazer coisas com ele... era porque tê-lo ali deixava-a tranquila, sentia, quase sem se aperceber, que naquela direcção o horizonte não era uma linha vazia, era uma espécie de rede dos trapezistas - e acrobata que é artista não gosta de dizer que trabalha com rede. de todos os movimentos que ele fazia para se libertar, ela enredava, enredava e ele foi ficando, de peito aberto, e esperava pelo dia do passeio. caiu a noite e o dia várias vezes e decidiu não cair mais nos enredos. estava por tudo, já não se conseguia magoar mais, acho até que ele já nem queria passear com ela. fez o que o coração mandou, como quase sempre. foi passear sem ela. pôs desinfectante naquela teia. e ela, ao ver o seu trono derretido fez mais um dos seus movimentos, ir atrás sem ir, disse mais ou menos, na esperança que ele entendesse. e entendeu. mas não ligou. ele sabe quando ela está impaciente com ele, compreende os seus assim-assins mas não liga.
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ela é dominada por aquela coisa que se chama sentimento de pertença. e ela acha que o mundo lhe pertence e que ela pode escolher tudo. eles. os timmings. as investidas. o coração deles. ela nunca se vai sentir só, porque quando um coração salta para fora, há sempre um que salta para dentro. e não importa o tamanho, o importante é haver um coração. isso basta-lhe. e por mais que ela prefira aquele que saltou, ela so vai mais ou menos atrás. ele acredita que vai ser sempre assim, por causa disso, ele acha que ela só precisa dum coração. e ele nao é um coração, é o coração dela. ela sabe disso mas não liga.